Onde quer que os nossos pés assentem neste momento somos encaminhados para um passado colectivo dos mortos que já só na memória tem existência. E é no entrelaçar destas memórias que criamos texturas mentais vindas de um som que está para além dele e de nós próprios. Onde estavamos nós antes e para onde vamos Quando A Alma Não É Pequena? Lá fora nas ruas tudo parece colidir e dentro a melancolia da leveza do sentir leva-nos a desaparecer, tornando-nos invisíveis na fusão. Sentimos a vida tão devagar que acabamos sentindo o nosso coração na iminência de parar. A nostalgia é a do fado parecendo ouvir Maria Teresa de Noronha sussurrando ao nosso ouvido se os meus olhos te incomodam quando estão na tua frente, eu prometo arrancá-los e amar-te cegamente. Das fendas do passado surge também o flamengo, o tango e o western de Ennio Morricone. Quando A Alma Não É Pequena é ouvida sem palavras sendo os seus instrumentos a sua única linguagem. A viagem para o passado é assim mesmo: os mortos estão fechados em si mesmos, a nossa aproximação a eles é feita em silêncio das palavras.(Dead and Company,2006)



Este disco transmite em traços low-fi vintage imagens esbatidas cobertas de pó da sua própria realidade. Todos os temas são sementes de bluegrass, country e folk que criam um só fruto: a Americana, de uma forma que Matt Ward conseguiu original neste nosso 4º álbum. E como o som da fusão de estilos não acredita em limite algum, nós ao ouvirmos Transistor Radio também não. Sentimos o despertar numa guitarra acústica em One Life Away com uma voz do Delta do Mississipi ouvida de um rádio antigo nos dizendo: to all the people underground/ listening to the sound of the living people/ walking up and down the graves/ well one of them is mine/ I visited my fraulein/ she's only one step away... Num piano, percurssão, guitarra e baixo, acelerados lá vamos nós a passear no Big Boat com a voz nos deixando ver: well, he says he’s got a big boat/ a high roller/ and everybody knows its name/ oh, it’s a big boat and it pumps up the poor boys pride/ says he’s got a big boat, but it’s just a fairy boat and that makes for a short, short ride...O inicio do profundo adormecer surge da guitarra acústica de Lullaby + Exile e a tal voz nos cravejando lentamente com as palavras: oh a trance is a spell/ with a thrill wrapped up inside it/ and try as you might to fight it/ love will get you in the end...E fossem as vidas feitas de música... e este disco seria, em muitas, a banda sonora.
A performance dos White Stripes aqui filmada em video Super 8 no The Empress Ballroom no mês de Janeiro de 2004 em Blackpool, leva-nos a acreditar novamente na música moderna tocada ao vivo. A originalidade da realização é de Dick Carruthers e é produzido pela Third Man Films.Não fosse a beleza e o estilo corporal de Meg enquanto actua e diriamos que era o diabo num corpo feminino ao lado do de Jack. Ela acompanha-o na bateria e ele, na guitarra, voz e piano, nunca se esquece dela por um momento. E quando o concerto inicia com When I Hear My Name torna-se impossível idealizarmos, ou melhor não queremos que o concerto tenha um fim. Os instrumentos atiram do palco o seu Blues-Rock danificado e isso torna os seus álbuns um segundo plano. Em temas como You're Pretty Good Looking (For A Girl), Seven Nation Army e a cover de Dolly Parton de Jolene conseguem o inevitável: um intenso feed-back positivo da multidão. É importante perceber o contexto de tudo, pois as bandas não acontecem por acaso, e a Meg e o Jack, os irmãos White, não precisam de mais se tiverem-se um ao outro e um palco para viverem.
As histórias que somos até entrarmos na idade adulta ouvimo-las nas palavras de John Darnielle em The Sunset Tree, a voz e a alma dos The Mountain Goats. Nesses lugares da memória onde as imagens foram vividas à toa num mundo de cá, nem sempre boas, mas nem por isso más o suficiente para não haver projecção num futuro. O disco é folk-rock simpático apesar da tristeza induzida ao ouvinte pelas estórias de cada traço de vidas apanhadas em cada faixa de som. Este não é complexo, mas sim cristalizado na simplicidade das cordas de uma guitarra acústica e os restantes instrumentos funcionam para nos lembrar e marcar as palavras de Darnielle. Os restantes músicos do álbum são: Peter Hughes (baixo, backing vocals, guitarra), Franklin Bruno (piano, guitarra), Erik Friedlander (violoncelo), Alex DeCarville (bateria) and Scott Solter (teclas). No fim de ouvirmos o disco, ficamos com uma sensação dentro de nós: a de que não vale a pena ficarmos tristes, pois os dias passam na mesma...
Ao ter o segundo albúm de Jolie Holland por perto temos tudo. E tudo inicia caminho com sascha, uma fusão de jazz-folk creativo, que nos prepara para o resto da viagem do albúm. O piano de Amen cria um fio conductor com o nosso subconsciente que nos faz desejar estar nos anos 50 perdidos nas horas de um bar decadente. Em Mad Tom Of Bedlam somos abandonados a nós próprios com o único apoio de uma percursão jazz e uma voz segura, o que nos vale é termos uma música perfeita. No country-rock de Goodbye California a melodia criada com a percursão, a guitarra acústica, a slide-guitar e a voz abre portas para vaguearmos numa pequena cidade do velho oeste americano imaginário. Darlin' Ukelele deixa-nos a pairar algures num sítio estranho até que a voz de Jolie nos vem buscar. As faixas estão como que escondidas umas nas outras e o que temos a fazer é procurar pelo albúm todo...Jolie toca vários instrumentos em Escondida (guitarra, piano e ukulele) e produz os seus próprios álbuns. E é com um albúm assim que nos fazem sentir vivos ao fim de mais um dia.
"...Millionaire: trashy and melodic at the same time, heavy, yet danceable..." in site oficial da banda belga. É um som todo ele electrizante em que a bateria quebra as guitarras em pedaços tendo o baixo como única testemunha e os samplers a viciar o ouvinte. A voz de palavras tem de se colocar em pé pra se fazer ouvir rasando por entre o som eléctrico dos instrumentos. A malha sonora é um todo, sem margens para nunca perdermos o sentido onde nos leva. Em momento algum do albúm nos sentimos vazios, pois Tim Vanhamel (voz/guitarra), Bas Remans (baixo), Aldo Struyf (samples e sintetizadores) e Dave Schroyen (bateria)e as mãos do Josh Homme na produção, não deixam que tal nos aconteça. Cada faixa inicia dando-nos de imediato um som a que nos agarrar de forma forte e irreversível. Havendo a seguir tempo e espaço para a sonoridade se alterar sem aviso prévio e de rapidez alucinante. É aqui que ocorre algum experimentalismo controlado. É rock sem margens definidas!
Este é o primeiro albúm de Mirah ( Mirah Yom Tov Zeitlyn) e diz tudo o que estava para vir no futuro. Toca-nos com a sua voz de menina infantil inofensiva rodeada de sons divertidos essencialmente acústicos, porém com desvios noutros sentidos, como na faixa Small Town em que um orgão antigo nos revela um som tosco que nos faz tropeçar, cair e levantar todos orgulhosos. Deixando o mundo a girar lá fora nas ruas, vivemos neste pop-folk as pequenas histórias de intimidade e cumplicidade de uma menina que nos faz ver que já se faz tarde. Ela nos diz de que é feito o mundo, o mundo da parte de trás das nossas mentes. Um mundo fantástico de oceanos e florestas perdidas dentro de nós cheias de amizade. É fatal perder-se qualquer apego a bad feelings trazidos do mundo exterior, ao ouvir este albúm só existe a verdade das palavras simples.


